Falta-te uma coisa …

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“Eu poderia ter feito mais. Não fiz o suficiente. Vocês não têm idéia de quanto dinheiro eu desperdicei… ” – lamenta o empresário alemão Oskar Schindler, ao ser homenageado pelos judeus cujas vidas salvou durante o Holocausto. Ao olhar seu dedo, pensa em quantas vidas poderiam ter sido salvas se ele tivesse se desfeito daquele anel de ouro em momentos de gritante necessidade.

Esta emocionante cena marca o final do filme “A Lista de Schindler“, uma obra a respeito de um homem que dedicou seu empreendimento industrial e quase a totalidade de seus bens para salvar mais de 1000 vidas durante a Segunda Guerra Mundial. Incrível pensar que um homem que fez tanto, sacrificando e arriscando sua vida pelo bem estar de tanta gente, tenha sido tomado por uma crise de consciência, não por não ter feito nada, mas por pensar não ter feito o suficiente…

Fico apavorado em pensar que muitos de nós, obreiros do Reino, seremos tomados pelo mesmo sentimento naquele dia em nossos olhos se abrirão para a Eternidade e nossas obras serão provadas pelo fogo

Na era dos megatemplos, tenho a mais profunda convicção de que o chamado do jovem rico é o chamado da Igreja:

E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me. (Mc 10:21 – negrito acrescentado)

Não digo com isso que o Senhor esteja chamando a todos indivíduos a venderem a totalidade de suas posses e seguí-lo, transformando-os em uma espécie de versão pós-moderna de Francisco de Assis.1 Mas entendo que este se trata do chamado coletivo da Igreja como Corpo.

O chamado a um estilo de vida alternativo – vender tudo e doar aos pobres – foi um chamado específico ao jovem rico porque Cristo discerniu que as riquezas eram a fortaleza espiritual na vida deste que, infelizmente, nunca se tornou mais do que um mero candidato a discípulo. De acordo com as Escrituras, onde está nosso tesouro, também estará nosso coração. Se nos dias atuais, como Igreja, gastamos a maioria de nossos recursos financiando nossas próprias tradições (salários, edifícios, programas, etc), onde estará então nosso coração, coletivamente falando? Diante de tal cenário, não seriam as finanças uma fortaleza espiritual na vida da Igreja de nossos dias também?

Paulo, em sua sabedoria apostólica, nos ensina que todos os cristão genuínos edificam sobre um mesmo Fundamento, que é Cristo. Entretanto, há diferentes maneiras de se edificar sobre este Fundamento: com obras de ouro, prata e pedras preciosas, que permanecerão por toda a eternidade, ou com obras de madeira, feno e palha, que serão queimadas por fogo. Observe que a passagem não fala a respeito da perda de nossa salvação, mas a respeito da manifestação da pureza, da importância e da consistência de nossas obras.

O fogo a que Paulo se refere não é o do inferno, mas o Portal para a Eternidade pelo qual teremos que passar antes de entrarmos no Paraíso. Quanto de nossas financas, coletivamente falando, tem sido investidas em obras de ouro, prata e pedras preciosas (no envio de obreiros missionários, no sustento dos pobres, orfãos e viuvas) e quanto dinheiro tem sido gasto em obras terrenas e supérfluas que não transicionarão à Eternidade quando passarem pelo fogo?

Conclusão

O modo como empregamos os recursos financeiros da Igreja local identifica nossas prioridades e define como utilizamos os demais dons que Deus proveu à Comunidade Divina (tempo e pessoas). Por isso somos confrontados, em nossa geração, por uma voz profética que nos desafia a escolher entre uma prática religiosa ensimesmada, que gira em torno de nossa própria existência institucional, ou um estilo de vida comunitário simples, profético e missional.

Já aprendemos e, há 500 anos atrás reaprendemos, que somos salvos pela nossa fé, e não por obras. Mas o amor sacrificial, na forma do cuidado aos necessitados, será a adaga de Deus para apunhalar a Mamon e destronar essa potestade, não somente de nossas vidas individuais, mas também de nossa vida comunitária, como Igreja. Toda e qualquer tentativa de reforma em nossos dias que ignore esta etapa é parcial, na melhor das hipóteses, ou meramente cosmética, na pior delas. Para o escândalo dos pregadores da graça barata, Deus colocou o cuidado ao pobre, ao orfão, à viúva e aos demais necessitados em nosso meio no cerne da prática da verdadeira religião – fator este que parece ser, ao lado da santificação, uma das diferenças visíveis entre ovelhas e bodes no final dos tempos. Justiça social no Reino não se trata de Teologia da Libertação. Trata-se do pulsar do coração de Deus pelos necessitados.2

O desapego coletivo aos elementos materiais de nossas tradições será um dos aferidores de medidas do chamado profético de nossa geração. E receio que, assim como o jovem rico, muitos entre nós que amam ao Senhor – homens e mulheres de caráter íntegro e versados nas Escrituras – se escandalizarão com este chamado e voltarão à prática de sua velha rotina religiosa: belas reuniões, belos estudos, belos cânticos em suas belas basílicas, porém…

Falta-te uma coisa

Notas

[1] O estilo de vida da Igreja neotestamentária não era o comunismo. Havia propriedade privada entre os crentes, mas estas eram colocadas à disposição do Reino para servir os mais necessitados. Ao longo de toda a Sagrada Escritura, AT e NT, observamos que Deus não eliminou o conceito e a prática da propriedade privada, mas promeve a igualdade social no Reino através do chamado dos ricos para aliviar o sofrimento dos pobres.
[2] Para que tenhamos uma idéia de como o Senhor leva a sério esta questão, muitos pensam que Sodoma foi destruída pela prática da homossexualidade, mas esta não foi a principal iniquidade desta cidade (ver Ezequiel 16:49).


© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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O que está acontecendo no Egito?

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Muitos de nós envolvidos no ministério cristão no Egito estamos estarrecidos com os mal-entendidos sobre a situação que têm sido propagados até mesmo pela mídia normalmente bem equilibrada, como a BBC, e a maneira como ela tem retratado a Irmandade Mulçumana como vítimas de violência.

Assim, em meu próprio nome, e de Ramez Atallah (Secretário Geral da Sociedade Bíblica do Egito), do pastor Fayes Ishaq (um dos líderes da Igreja Evangélica Kasr Dubaraq), de outros líderes de ministérios no Egito e da liderança do “Middle East Concern”, permita-me, por favor, pintar um quadro mais real do que tem acontecido no último ano, aproximadamente.

Sim, o antigo presidente Mohammed Morsi foi eleito “democraticamente” em junho de 2012, mas pela mais diminuta maioria — apenas 13 milhões de pessoas (de uma população total de 83 milhões) votaram em Morsi. Ainda assim, ele entendeu isso como um mandato para fazer o que quisesse, com uma atitude de “o vencedor leva tudo”. Seu novo governo não foi inclusivo e ele rapidamente designou antigos líderes da Irmandade Muçulmana (alguns sentenciados anteriormente por violência ou incitação à violência) para servir como governadores regionais ou ministros do governo. Em novembro de 2012, ele deu-se a si mesmo, ilegalmente, poderes absolutos para agir sem censura, e apressou a votação de uma nova constituição pró-islâmica, apesar dos protestos e boicotes de liberais, muçulmanos moderados e cristãos — e, então, recusou-se a convocar novas eleições — como havia concordado a fazer depois que uma nova constituição fosse adotada. É claro que a economia foi muito mal administrada pelos novos ministros, cuja única qualificação aparente para o ofício era o fato de serem membros fiéis da Irmandade Muçulmana. No final de 2012, a infraestrutura do país começou a desmoronar, as reservas de energia e combustível tornaram-se instáveis, os preços das “commodities” foram às alturas e o Egito tentava duramente conseguir o tão necessário financiamento internacional.

Em 30 de junho de 2013, no primeiro aniversário da eleição de Morsi à presidência, o povo já não aguentava mais! Aproximadamente 30 milhões de pessoas foram para as ruas protestar contra a continuação de Morsi na presidência — isso incluía mais do que os que votaram em Morsi um ano antes. Mesmo que a cifra de 30 milhões não possa ser independentemente verificada, é claro que o número de pessoas nas ruas era muito maior do que o número de pessoas que votou em Morsi. Mas, diferentemente de presidentes de qualquer outra democracia normal, Morsi recusou-se a sair ou mesmo tentar um novo mandato por meio de novas eleições. Para muitos, esta atitude confirmou que a Irmandade Muçulmana estava apenas usando a nova democracia no Egito para estabelecer uma teocracia.

Numa situação como esta, a última linha de defesa da democracia é o Exército. Apenas este tem o poder de recomeçar o processo e, pela demanda popular e com a devida notificação prévia, o Exército veio a intervir e remover o ex-presidente — para o deleite absoluto e o alívio da maioria do povo.

Nas últimas seis semanas, a Irmandade Muçulmana ocupou vários espaços públicos para fazer manifestações a favor da reinstalação do ex-presidente (atualmente ele está preso pelo Exército e é acusado de abuso de poder, incluindo apoio financeiro e de inteligência significativos ao Hamas). Diferentemente de uma ocupação pacífica como a da Praça Tahrir pelos manifestantes em janeiro de 2011, e, novamente no final de junho de 2013, essas ocupações da Irmandade Muçulmana eram dominadas por incentivos à violência contra o Exército, a polícia, os liberais e, principalmente, contra os cristãos coptas no Egito. Tudo isso resultou na violência testemunhada em 14 de agosto, quando delegacias de polícia, hospitais, propriedades públicas e privadas foram destruídas. Muitas igrejas cristãs (pelo menos 40 até agora), casas e estabelecimentos comerciais também foram atacados, além de um monastério, três sociedades religiosas, três importantes lojas pertencentes à Sociedade Bíblica, três escolas cristãs e um orfanato.

O patriarca copta Tawadros II fez uma declaração sobre os ataques às igrejas nesta semana, dizendo que “isso era esperado e, como cidadãos e cristãos, nós estamos considerando os prédios de nossa igreja como um sacrifício a ser feito pelo nosso amado país”. Outros líderes de igrejas fizeram declarações parecidas, enfatizando que os prédios não fazem a Igreja, mas a Igreja é o Corpo de Cristo, feito de pessoas que têm sua fé nele, e que esta fé está se tornando mais forte à medida que vivencia tempos desafiadores.

É importante e encorajador notar que alguns muçulmanos foram proteger igrejas e que, em retorno, muitos cristãos enviaram mensagens aos seus concidadãos muçulmanos dizendo: “Prédios podem ser reconstruídos, mas vocês são inestimáveis; então, procurem sua própria segurança e não se preocupem com as igrejas”. O governo também anunciou que tomará a responsabilidade financeira sobre si de reconstruir as igrejas danificadas.

A Irmandade Muçulmana foi e permanece eficaz em aparecer como vítima pela mídia, apontando como Morsi foi “democraticamente” eleito e que o “golpe” do Exército foi um revés maior no processo democrático do país. Eles souberam acionar a imprensa ocidental, que parece transmitir esta versão para a maior parte do mundo. Mas esta não é a versão verdadeira para a maioria da população egípcia.

Enquanto concordamos que a perda de vidas nestes últimos dias foi uma das mais deploráveis, sabemos que não foram apenas adeptos da Irmandade Muçulmana que morreram. Pouco se noticiou sobre as tentativas da Irmandade Muçulmana de desestabilizar o país, de seus convites à violência ao governo e seus apoiadores. Houve uma total falta de divulgação em relação às armas que a Irmandade tinha em seus acampamentos e que usaram contra o Exército, quando este tentou desfazer os acampamentos.

Portanto, posso pedir suas orações para este importante país — o maior no Mundo Árabe, com a maior comunidade cristã do Oriente Médio? Por favor, ore para que:

  • A atual violência termine logo;
  • Uma efetiva prática da lei e da ordem sejam reestabelecidas para o benefício de todos os cidadãos;
  • Haja uma efetiva proteção das igrejas e de outras propriedades contra o ataque de extremistas;
  • O país seja governado para o benefício de todos os cidadãos, com pessoas de diferentes credos sendo capazes de viver lado a lado pacificamente;
  • Os cristãos tenham oportunidade de desempenhar um papel proeminente e eficaz ao aproximar-se das necessidades de todos os cidadãos e ajudar a trazer cura e reconciliação ao país.

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Dr. Terence Ascott é fundador e diretor-presidente da SAT, uma TV cristã para o Norte da África.

Notas:
1. Artigo publicado no dia 15 de agosto no site da SAT
2. Traduzido por uma missionária brasileira que vive no Egito, mas que, por questões de segurança, prefere manter-se no anonimato.

Legenda da foto: Crianças oram em igreja incendiada no Egito. Fonte: SAT.

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No ínicio de Julho tinha compartilhado com alguns amigos sobre a situação do EGITO.
Desde então Isaías 19 não sai da minha mente nesses dias, leia.
O Egito deve passar por uma reforma espiritual antes da volta do Senhor Jesus.

Protefa [Dom ministerial]

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O gênio da liderança profética é a capacidade de discernir as realidades espirituais em uma determinada situação ou da comunidade. Este estilo de liderança comunica os elementos das realidades espirituais de uma maneira oportuna e apropriada. A principal preocupação da liderança profética é promover a missão Deus para as pessoas e comunidades. O Profético tem um senso inato de conhecer a mente de Deus sobre as questões relativas ao crescimento e transformação. Como líder, ele ou ela está preocupada que as alterações feitas hoje são necessários para progredir no futuro. O profeta busca a integração entre as realidades espirituais e as de necessidade imediata. Ele ou ela é um questionador, perturbando livremente o status quo e desafiando pessoas e organizações para se moverem em uma direção diferente. Ele ou ela pode sondar a consciência individual ou em grupo solicitando questionamentos, tudo para ganhar clareza. O Profeta impacta as comunidades através da integração. Profético influencia outros pela verdade – dizer, não tem medo de falar em uma tensão com a forma dominante de pensamento e prática.
Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Este veio como testemunha, a fim de dar testemunho da luz, para que todos cressem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. – João 1.6-8
Características:
Questiona o que se tornou normativo;
Perturba o pensamento e as práticas comuns;
Agita para uma mudança positiva;
Desejos de aprendizagem para fins de influenciar;
Discerne a mensagem da Verdade;
Procura assegurar uma resposta autêntica à Verdade;
Questão central é um relacionamento com Deus;
Sentimento de urgência, agora, no momento, “isso deve acontecer.”;
Confortável desmantelamento do presente para um futuro de esperança;
Profunda compaixão pela causa do povo;
Inspira todas as pessoas para responder a mensagem de Deus;
Pode comunicar de forma criativa para obter o resultado da mensagem;

Impacto: Integração, o único que sabe.

Você tem muita fé no que você acredita, explica suas crenças com os outros. Seu conhecimento preciso do que Deus nos chama a fazer vai incentivar e assegurar às pessoas que, naturalmente, questionam ou estão indecisos. Este incentivo e garantia leva outros a confiança, fidelidade, obediência e influência.
Como uma pessoa que se comunica com ousadia a verdade de Deus, estar ciente de quão forte é a sua mensagem pode se tornar. Pergunta aqueles que você confia para
ajudar com a escolha da palavra, entrega e tempo. A mensagem certa no momento errado pode ser facilmente ignorado. Isto pode resultar em pessoas ficando cansado com a persistência da mesma mensagem.
Você sente grande propriedade da mensagem que Deus lhe deu. Pensa em maneiras que você pode comunicar a mensagem além das palavras.

Como você pode servir como uma forma de incentivar o seu maior compromisso? Então, comprometa-se a servir em locais que refletem sua paixão.
– Daniel Hoffman and Alan Hirsch

Desafios da Contextualização no Sertão

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Primeiramente precisamos nos concientizar o declínio cultural e educacional no meio do Sertão. Precisamos distinguir as sedes dos municípios da sua zona rural. A cosmovisão do povo rural certamente não é a mesma do povo urbano. Por muito tempo faltou energia e com ela a informação pela TV. A educação fundamental continua precária e a leitura não é desenvolvida. As possibilidades de viajar são poucas. Há uma certa discriminação entre o povo da sede (urbano) e o povo rural: os primeiros consideram os segundos como povo simples, não educado e ignorante , os segundos consideram os primeiros como povo arrogante. O orgulho dos dois não permite muito intercâmbio e contato que passa de uma mera negociação na feira ou nos comêrcios.
Na zona rural do sertão deve habitar entre 30 a 40% da população. Em muitos municípios o povo rural tem maioria.
 
Para ler o artigo completo clique aqui.
 

Vivendo como Igreja Relacional – parte 1

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Por Wayne Jacobsen, em julho de 1999

Tradução por Ezequiel Netto

Sempre que estudamos Mateus 16, não resisto em fazer uma pergunta ao grupo de crentes. Lá encontramos a única instrução registrada que Jesus deixou para seus discípulos a cerca da igreja: “Eu edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Ele não pediu que eles fizessem isso, e nem deixou um esquema de uma organização. Ele simplesmente disse que ele mesmo edificaria a sua igreja e que ela seria forte o bastante para resistir a qualquer ataque das trevas. Então, só isso parece suficiente para avaliar como ele está fazendo. Se ele está empenhado neste projeto por quase 2000 anos, o que nós deveríamos estar demonstrando? Eu pergunto isso para todo tipo de pessoas, mesmo nas convenções pastorais. Quando pergunto, posso sentir a tensão no ambiente. As pessoas ficam desconcertadas, com um sorriso meio sem graça. Eles sabem bem que não estão agindo corretamente, que a igreja está fragmentada por divisões, escândalos de imoralidade, vilipendiada por sua arrogância, exposta por suas prioridades desfocadas, e longe de dar continuidade ao ministério de Jesus demonstrado nos evangelhos. Também temos que concluir que Jesus não fez um bom trabalho, ou considerar que existe uma grande diferença entre o que ele chama igreja e o que nós chamamos.

Eu ficava desiludido sobre o que eu pensava ser a igreja de Deus. Vendo seu povo perdido em prioridades que estavam distantes da realidade e fazendo coisas que pareciam beneficiar mais a instituição do que extender o reino de Deus em nossas vidas ou no mundo, eu lamentava pela triste situação da igreja. Nunca mais! Recentemente eu passei a perceber que nossas instituições religiosas não são a igreja da forma que Deus vê. O que Deus chama “igreja” são todas as pessoas que reconhecem ao seu Filho como Senhor e Lider. Eles estão espalhados por todo o mundo, crescendo em conhecer a Deus cada vez mais e em demonstrar seu caráter neste mundo. Esta é a noiva que Deus está preparando para seu próprio Filho. Eu vejo partes dela em todo o mundo. Longe de ser fraca, dividida e corrompida, a igreja de Jesus Cristo está crescendo a cada dia em beleza, força e poder. Como Jesus está fazendo para edificar sua igreja? Inacreditável! Seu povo existe em cada canto desta Terra, e eles encontram formas de se comunicar uns com os outros, glorificando a Deus e nada consegue enfraquecer este povo.

 O que Deus chama Igreja

Para ver isso, contudo, devemos olhar além das instituições e prédios que chamamos de igreja e encontrar pessoas que estão vivendo ligadas em Deus. Por favor, não entenda mal esta afirmação. Não estou falando que estas instituições são ruins. Só estou te encorajando a não confundí-las com igreja. Sim, muitas pessoas que as frequentam, que também são parte da igreja de Deus, e crescem em conhecê-lo cada dia mais. Esta não é a questão, mas para ver o mover de Deus neste mundo, você precisa olhar além dos grupos que se autodenominam igreja, e ver o quadro maior – todos aqueles que Deus está chamando para sim mesmo através de tua cidade e de toda a Terra. Se não for desta forma, vamos confundir nosso sistema religioso com a igreja e perder a grande obra que Deus está fazendo em preparar ele mesmo a noiva. Temos que ter o cuidado de chamar igreja o que Deus chama de igreja, ou vamos terminar falando coisas que não têm nenhum sentido. Por exemplo, recentemente eu estive com um casal que, há pouco tempo atrás, simplesmente deram um basta. Cansados dos tapinhas nas costas, entediados por serem espectadores nas manhãs de domingo, não suportando mais serem manipulados em fazer mais para Deus, esgotados com tantas responsabilidades, então eles me falaram que deixaram a igreja. “Como puderam fazer isso?”, eu perguntei. “A igreja não é algo que você possa deixar, ao menos que abandonem a Jesus”. Certamente que não foi isso que fizeram, e estavam querendo dizer que deixaram a instituição religiosa na esperança de encontrar uma mais autêntica expressão da vida de Cristo do que no grupo que eles estavam participando. Mas isto é uma coisa muito diferente de abandonar a igreja. Vamos ter cuidado com nossos termos. Quando organizações religiosas adotam o termo “igreja”, fica fácil para nós ficarmos confusos, pensando que isso é o que realmente elas são. Mas elas não são. Poderiam ser um ajuntamento de pessoas que fazem parte da igreja, mas em si mesmas elas não são igreja. A igreja de Jesus Cristo nunca poderia estar contida em nenhuma organização e, de fato, da maneira que ele age, torna impossível enquadrar a igreja mesmo na mais perfeita estrutura construída.

Não há espaço para andarilhos solitários

Sei que você provavelmente ouviu pessoas falando coisas, mostrando que caminham sozinhas, mas parecem que nunca prosperam na vida de Jesus. E por um longo tempo o povo de Deus age desta maneira. Da mesma forma que uma instituição não pode ser igreja só por declarar isso, os que caminham sozinhos também não. Quem é a igreja neste mundo? Não são aqueles que vivem a mesma confissão de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo”? Você é parte da igreja quando vive debaixo do Cabeça, seguindo a ele como seu Senhor e líder. Você também não pode ser igreja por seguir alguém que faça isso – você mesmo deve fazê-lo. E seguir a ele não te conduzirá para a independência. Mas como é isso? Deus é comunhão e em qualquer lugar onde é conhecido, uma verdadeira comunidade surgirá ao redor de seu povo. Pai, Filho e Espírito Santo têm permanecido em verdadeira comunhão por toda a eternidade, em pura alegria, compartilhando vida, amor e glória entre si mesmos. Você não consegue ser tocado por seu amor sem ser atraído em direção às pessoas que Deus colocou em seu caminho.

Quando os irmãos e irmãs estão ligados uns aos outros em verdadeira comunhão, logo descobrem que o que conhecem de Deus é sempre em parte, como através de uma fresta em uma janela embaçada. Mas na comunhão entre crentes que estão crescendo em conhecer a Deus cada vez mais, há plenitude de sabedoria e revelação. Por isso que Paulo disse em Efésios 1 que a igreja é “a plenitude daquele que enche tudo em todos”.

Imagine um grupo de pessoas experimentando esta incrível promessa! A razão por que nossa visão de Deus é geralmente limitada, é porque as instituições só são capazes de unir pessoas que vejam a mesma coisa e da mesma forma. A visão que eles têm através das lentes embaçadas nunca aumenta em clareza, e eles ficam cada vez mais convencidos que o que estão vendo é mais perfeito do que qualquer outro vê. O tipo de comunidade de Deus é aquela que surge entre pessoas que estão buscando uma vibrante amizade com o Deus vivo. E eu pensava que a vida de Deus fluía para as pessoas através da nossa então chamada estrutura da igreja. Mas não é desta forma. Não existe vida na igreja – só existe vida em Jesus. Aqueles que se reúnem para ficar alimentados ou são bombeados para atravessar mais uma semana perdem o verdadeiro sentido do que é uma igreja relacional. Nós só podemos encontrar vida em Jesus e se de fato encontramos, nossa conexão com outros crentes nos permite compartilhar esta vida juntos. “Igreja” jamais pode ser um substituto de conhecer a Deus. Estar conformado a um sistema religioso que nos encontramos e gostamos não quer dizer que o estamos seguindo. Ele está oferecendo a cada um de nós a alegria de conhecê-lo mais e mais a cada dia.

Dinâmica Institucional

É por este motivo que crescer em um relacionamento pessoal com Deus é o ponto mais importante no cristianismo relacional. Ele só pode começar se as pessoas estiverem dispostas a conhecerem e seguirem ao Deus Vivo. À medida que nosso relacionamento com ele vai crescendo, vamos aprendendo a nos relacionar com outros crentes. A comunhão não funciona de outra maneira. Após vários anos tentando desenvolver comunhão, só causamos desilusão para aqueles que realmente querem conhecer a Deus melhor a cada dia. Gene Edwards estava correto quando disse que o modelo de vida para a igreja é fundamentado no relacionamento de Jesus com seus discípulos. Ele nunca ensinou a eles como fazer um culto ou como construir um esquema organizacional. Ele nunca disse a eles que a vida da igreja consistia em fazer reuniões, se conformar a algum grupo étnico, ou regimentar pessoas para o mais bem intencionado programa. Em vez disso, ele ensinou como se relacionar com Deus como Pai, e entre si como irmãos e irmãs. A linguagem usada com eles (e a mesma usada por Paulo em suas cartas) não era a linguagem das instituições, mas a linguagem de uma família. Pelo fato de o que chamamos “igreja” hoje em dia opera numa dinâmica institucional, muitos crentes atuais não têm a mínima idéia do que Deus planejou de como seria a vida da igreja. Os objetivos das instituições são os credos, programas e práticas com o objetivo de conformar as pessoas na “maneira que as coisas são feitas aqui”. Geralmente, um grupo de líderes é mais valorizado e recebe maior atenção, e as pessoas são encorajadas a submeterem-se inquestionavelmente aos ensinamentos e conselhos deles. A dinâmica institucional encoraja as pessoas a viverem um personagem, e não liberta elas para serem verdadeiras. Fofocas e um jogo de influências abundam à medida que as pessoas tentam alcançar uma posição, e muitas vezes às custas de outros. A mesma coisa é vista no mundo coorporativo, e esta é a base de vida de uma instituição. E se você, por algum motivo, deixar uma instituição, será, na maioria das vezes, ignorado. Muitas pessoas que deixaram uma instituição religiosa comentaram que sentiram-se como se deixassem de existir, mesmo para aquelas pessoas que consideravam amigos íntimos.

 Dinâmica Familiar

Viver como família, contudo, é desenvolver algo com métodos e alvos completamente diferentes. Numa família saudável, as pessoas não estão cooperando para alcançar um fim. Eles estão simplesmente aprendendo a relacionarem-se uns com os outros em amor. Numa família saudável, a diversidade não é apenas permitida, mas é celebrada. As pessoas não se relacionam umas com as outras através de uma cadeia de autoridade, mas com suas capacidades e habilidades pessoais. Se o carro de alguém começa a fazer barulhos estranhos, eles não se sentem obrigados a chamar um irmão mais velho para resolver isso. Eles já sabem quem tem maior habilidade com carros na família e buscam a ajuda deste. Familias saudáveis não pressionam as pessoas para adotarem a mesma forma, mas deixam pessoas crescerem juntas, cada uma no seu próprio passo. Eles têm a liberdade de discordar sem se dividirem em várias famílias. Eles participam juntos da caminhada de cada um, servindo com seus dons, discernimento espiritual e habilidades, sempre que necessário, ajudando uns aos outros sem se importar com que tipo de problema estão passando. Muitos cristãos encontraram um ânimo renovado no que as Escrituras chamam de “uns aos outros” e o Novo Testamento nos encoraja a praticar. Eles estão descobrindo que ensinar, aconselhar, servir, serem hospitaleiros, compartilhar confissões, orar pelos necessitados, admoestar ao egoísta, e tudo o mais, são coisas que o corpo de Cristo pode fazer uns com os outros, e não precisamos contratar profissionais que fariam isso por nós.

Como estamos vivendo juntos em Jesus, ele compartilha seus dons através de todo o corpo, onde cada um dá e recebe de Deus, através dos outros. É por isso que alguns dizem que, nas manhãs de domingo, há uma maior expressão da “igreja” nos estacionamentos do que se permite acontecer durante os cultos matinais. Se você já vivenciou a espontaneidade verdadeira, a comunhão em um grupo de cristãos, você não precisa me contar o quão rica é esta experiência. A alegria de caminhar juntos, sem fingimento algum, de ter pessoas que te suportam nas fraquezas, que te fortalecem com seus dons, é altamente recompensador. Sim, com certeza, muito disso pode acontecer entre os crentes que se reúnem no ambiente institucional, mas isso nem sempre acontece. O importante é que você reconheça a dinâmica familiar quando a vê acontecer, e a abrace com todo o coração. Por outro lado, ao reconhecer a triste realidade da dinâmica institucional, que não tem nada a ver com o reino de Deus, você deve se afastar sem culpa alguma. Da mesma maneira que Paulo encorajou os crentes a caminharem juntos, de forma que se edificassem mutuamente, ele também orientou que tivessem a liberdade de não andar em ambiente que fosse destrutivo para suas vidas. Se você sentir que deva se afastar deste grupo, não se condene e nem deixe que eles te condenem. Você não está deixando a igreja com isso, mas talvez seja o próprio Deus que pode estar te preparando para encontrar a igreja na mais autêntica forma que você já sonhou.

 Encontrando a vida do Corpo

Então, para onde devemos ir para encontrar a vida da igreja relacional? Pra Jesus, é claro! Isso pode parecer muito simplista, mas pra onde mais você poderia ir? Confie que Jesus irá providenciar a comunhão que ele quer que você tenha. Lembre-se, sua igreja é edificiada com aqueles que estão aprendendo a confiar nele. Você pode descobrir a liberdade de viver a igreja relacional exatamente onde você está. Não se preocupe se as pessoas estão ou não compartilhando das suas mesmas perspectivas. Simplesmente busque oportunidades de compartilhar a vida com pessoas famintas de conhecer a Deus mais e mais. Podemos descobrir, contudo, que algumas estruturas institucionais destroem aqueles que têm fome de seguir a Deus livremente e ele pode chama-los para fora de lá. Muitas pessoas deixam uma instituição quebrada, só pra se afundar numa outra, ou começar uma nova, à sua maneira. Eu te aconselho a ir devagar, e não fazer nada até Deus falar contigo claramente. Testemunhe para as pessoas com as quais Deus está te conectando. Alguns podem ser velhos amigos e, outros, novas aquisições. Não se apresse a começar nada. Aprenda a reconhecer o que Deus está fazendo em tua região para trazer conexões significativas entre cristãos que tem fome de conhecer a ele – sua integridade, sua graça, sua vida. Ele tem pessoas que caminharão contigo e te animarão a crescer sem te manipular para te conformar com as expectativas delas.

O que você experimenta em sua localidade pode ser muito diferente do que acontece em outros lugares. Pode acontecer numa reunião matinal de domingo, com os vizinhos da rua, em grupos caseiros, ou com pessoas que Deus colocou em seu caminho. Quando começar acontecer, você descobrirá que a vida da igreja jamais poderia se expressar em duas ou três reuniões semanais. Ela acontece todos os dias, como vivemos nossa vida em Deus e compartilhamos ela com os outros. Como você já leu anteriormente, Jesus tem várias maneiras de chamar os cristãos para compartilharem suas vidas juntos. No próximo assunto veremos o que a Bíblia quis dizer com “não deixando de congregar” e algumas maneiras que Deus usa para convidar pessoas a compartilharem suas vidas juntos. Sei que poderia ser desencorajador buscar a profundidade da vida do corpo, enquanto são poucos os que têm fome disso atualmente. Mas se Jesus não tirou de você a paixão por isso, ele vai dar um jeito de fazer acontecer. Porém, pode não vir exatamente da forma que você está esperando. Então, não foque tão firme numa direção, pois você poderia perder outras portas que ele está abrindo. Conte a ele que está faminto por conhecer a autêntica vida do corpo do jeito que ele compartilhava com os discípulos. Peça para ele te conectar com pessoas apaixonadas por viver a dinâmica familiar. Então, aproveite as conexões que ele te deu. Não tente forçar ou moldar nada, nem sinta a necessidade de organizar um grupo para isso. Simplesmente aprenda o que é se relacionar com irmãos e irmãs, mesmo que sejam grupos de dois ou três, que permitem que Jesus seja o centro. Ame os outros da mesma forma que Deus te ama, e verá a igreja de Jesus ser edificada ao seu redor, e em todo o mundo. Isso te surpreenderá! Acima de tudo, ele está fazendo isso por 2000 anos. Atualmente, ele está maravilhosamente bom em fazer isso.

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Você compartilha essa vida com outros na sua jornada? Como você tem sido igreja fora do âmbito institucional? Para você o que é o cristianismo relacional?