Falta-te uma coisa …

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“Eu poderia ter feito mais. Não fiz o suficiente. Vocês não têm idéia de quanto dinheiro eu desperdicei… ” – lamenta o empresário alemão Oskar Schindler, ao ser homenageado pelos judeus cujas vidas salvou durante o Holocausto. Ao olhar seu dedo, pensa em quantas vidas poderiam ter sido salvas se ele tivesse se desfeito daquele anel de ouro em momentos de gritante necessidade.

Esta emocionante cena marca o final do filme “A Lista de Schindler“, uma obra a respeito de um homem que dedicou seu empreendimento industrial e quase a totalidade de seus bens para salvar mais de 1000 vidas durante a Segunda Guerra Mundial. Incrível pensar que um homem que fez tanto, sacrificando e arriscando sua vida pelo bem estar de tanta gente, tenha sido tomado por uma crise de consciência, não por não ter feito nada, mas por pensar não ter feito o suficiente…

Fico apavorado em pensar que muitos de nós, obreiros do Reino, seremos tomados pelo mesmo sentimento naquele dia em nossos olhos se abrirão para a Eternidade e nossas obras serão provadas pelo fogo

Na era dos megatemplos, tenho a mais profunda convicção de que o chamado do jovem rico é o chamado da Igreja:

E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me. (Mc 10:21 – negrito acrescentado)

Não digo com isso que o Senhor esteja chamando a todos indivíduos a venderem a totalidade de suas posses e seguí-lo, transformando-os em uma espécie de versão pós-moderna de Francisco de Assis.1 Mas entendo que este se trata do chamado coletivo da Igreja como Corpo.

O chamado a um estilo de vida alternativo – vender tudo e doar aos pobres – foi um chamado específico ao jovem rico porque Cristo discerniu que as riquezas eram a fortaleza espiritual na vida deste que, infelizmente, nunca se tornou mais do que um mero candidato a discípulo. De acordo com as Escrituras, onde está nosso tesouro, também estará nosso coração. Se nos dias atuais, como Igreja, gastamos a maioria de nossos recursos financiando nossas próprias tradições (salários, edifícios, programas, etc), onde estará então nosso coração, coletivamente falando? Diante de tal cenário, não seriam as finanças uma fortaleza espiritual na vida da Igreja de nossos dias também?

Paulo, em sua sabedoria apostólica, nos ensina que todos os cristão genuínos edificam sobre um mesmo Fundamento, que é Cristo. Entretanto, há diferentes maneiras de se edificar sobre este Fundamento: com obras de ouro, prata e pedras preciosas, que permanecerão por toda a eternidade, ou com obras de madeira, feno e palha, que serão queimadas por fogo. Observe que a passagem não fala a respeito da perda de nossa salvação, mas a respeito da manifestação da pureza, da importância e da consistência de nossas obras.

O fogo a que Paulo se refere não é o do inferno, mas o Portal para a Eternidade pelo qual teremos que passar antes de entrarmos no Paraíso. Quanto de nossas financas, coletivamente falando, tem sido investidas em obras de ouro, prata e pedras preciosas (no envio de obreiros missionários, no sustento dos pobres, orfãos e viuvas) e quanto dinheiro tem sido gasto em obras terrenas e supérfluas que não transicionarão à Eternidade quando passarem pelo fogo?

Conclusão

O modo como empregamos os recursos financeiros da Igreja local identifica nossas prioridades e define como utilizamos os demais dons que Deus proveu à Comunidade Divina (tempo e pessoas). Por isso somos confrontados, em nossa geração, por uma voz profética que nos desafia a escolher entre uma prática religiosa ensimesmada, que gira em torno de nossa própria existência institucional, ou um estilo de vida comunitário simples, profético e missional.

Já aprendemos e, há 500 anos atrás reaprendemos, que somos salvos pela nossa fé, e não por obras. Mas o amor sacrificial, na forma do cuidado aos necessitados, será a adaga de Deus para apunhalar a Mamon e destronar essa potestade, não somente de nossas vidas individuais, mas também de nossa vida comunitária, como Igreja. Toda e qualquer tentativa de reforma em nossos dias que ignore esta etapa é parcial, na melhor das hipóteses, ou meramente cosmética, na pior delas. Para o escândalo dos pregadores da graça barata, Deus colocou o cuidado ao pobre, ao orfão, à viúva e aos demais necessitados em nosso meio no cerne da prática da verdadeira religião – fator este que parece ser, ao lado da santificação, uma das diferenças visíveis entre ovelhas e bodes no final dos tempos. Justiça social no Reino não se trata de Teologia da Libertação. Trata-se do pulsar do coração de Deus pelos necessitados.2

O desapego coletivo aos elementos materiais de nossas tradições será um dos aferidores de medidas do chamado profético de nossa geração. E receio que, assim como o jovem rico, muitos entre nós que amam ao Senhor – homens e mulheres de caráter íntegro e versados nas Escrituras – se escandalizarão com este chamado e voltarão à prática de sua velha rotina religiosa: belas reuniões, belos estudos, belos cânticos em suas belas basílicas, porém…

Falta-te uma coisa

Notas

[1] O estilo de vida da Igreja neotestamentária não era o comunismo. Havia propriedade privada entre os crentes, mas estas eram colocadas à disposição do Reino para servir os mais necessitados. Ao longo de toda a Sagrada Escritura, AT e NT, observamos que Deus não eliminou o conceito e a prática da propriedade privada, mas promeve a igualdade social no Reino através do chamado dos ricos para aliviar o sofrimento dos pobres.
[2] Para que tenhamos uma idéia de como o Senhor leva a sério esta questão, muitos pensam que Sodoma foi destruída pela prática da homossexualidade, mas esta não foi a principal iniquidade desta cidade (ver Ezequiel 16:49).


© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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