Pacto de Lausanne

Padrão

INTRODUÇÃO
Nós, membros da Igreja de Jesus Cristo, procedentes de mais de 150 nações, participantes do Congresso Internacional de Evangelização Mundial, em Lausanne, louvamos a Deus por sua grande salvação, e regozijamo-nos com a comunhão que, por graça dele mesmo, podemos ter com ele e uns com os outros. Estamos profundamente tocados pelo que Deus vem fazendo em nossos dias, movidos ao arrependimento por nossos fracassos e desafiados pela tarefa inacabada da evangelização. Acreditamos que o evangelho são as boas novas de Deus para todo o mundo, e por sua graça, decidimo-nos a obedecer ao mandamento de Cristo de proclamá-lo a toda a humanidade e fazer discípulos de todas as nações. Desejamos, portanto, reafirmar a nossa fé e a nossa resolução, e tornar público o nosso pacto.

1. O Propósito de Deus
Afirmamos a nossa crença no único Deus eterno, Criador e Senhor do Mundo, Pai, Filho e Espírito Santo, que governa todas as coisas segundo o propósito da sua vontade. Ele tem chamado do mundo um povo para si, enviando-o novamente ao mundo como seus servos e testemunhas, para estender o seu reino, edificar o corpo de Cristo, e também para a glória do seu nome. Confessamos, envergonhados, que muitas vezes negamos o nosso chamado e falhamos em nossa missão, em razão de nos termos conformado ao mundo ou nos termos isolado demasiadamente. Contudo, regozijamo-nos com o fato de que, mesmo transportado em vasos de barro, o evangelho continua sendo um tesouro precioso. À tarefa de tornar esse tesouro conhecido, no poder do Espírito Santo, desejamos dedicar-nos novamente.

2. A Autoridade e o Poder da Bíblia
Afirmamos a inspiração divina, a veracidade e autoridade das Escrituras tanto do Velho como do Novo Testamento, em sua totalidade, como única Palavra de Deus escrita, sem erro em tudo o que ela afirma, e a única regra infalível de fé e prática. Também afirmamos o poder da Palavra de Deus para cumprir o seu propósito de salvação. A mensagem da Bíblia destina-se a toda a humanidade, pois a revelação de Deus em Cristo e na Escritura é imutável. Através dela o Espírito Santo fala ainda hoje. Ele ilumina as mentes do povo de Deus em toda cultura, de modo a perceberem a sua verdade, de maneira sempre nova, com os próprios olhos, e assim revela a toda a igreja uma porção cada vez maior da multiforme sabedoria de Deus.

3. A Unicidade e a Universalidade de Cristo
Afirmamos que há um só Salvador e um só evangelho, embora exista uma ampla variedade de maneiras de se realizar a obra de evangelização. Reconhecemos que todos os homens têm algum conhecimento de Deus através da revelação geral de Deus na natureza. Mas negamos que tal conhecimento possa salvar, pois os homens, por sua injustiça, suprimem a verdade. Também rejeitamos, como depreciativo de Cristo e do evangelho, todo e qualquer tipo de sincretismo ou de diálogo cujo pressuposto seja o de que Cristo fala igualmente através de todas as religiões e ideologias. Jesus Cristo, sendo ele próprio o único Deus-homem, que se ofereceu a si mesmo como único resgate pelos pecadores, é o único mediador entre Deus e os homems. Não existe nenhum outro nome pelo qual importa que sejamos salvos. Todos os homens estão perecendo por causa do pecado, mas Deus ama todos os homens, desejando que nenhum pereça, mas que todos se arrependam. Entretanto, os que rejeitam Cristo repudiam o gozo da salvação e condenam-se à separação eterna de Deus. Proclamar Jesus como “o Salvador do mundo” não é afirmar que todos os homens, automaticamente, ou ao final de tudo, serão salvos; e muito menos que todas as religiões ofereçam salvação em Cristo. Trata-se antes de proclamar o amor de Deus por um mundo de pecadores e convidar todos os homens a se entregarem a ele como Salvador e Senhor no sincero compromisso pessoal de arrependimento e fé. Jesus Cristo foi exaltado sobre todo e qualquer nome. Anelamos pelo dia em que todo joelho se dobrará diante dele e toda língua o confessará como Senhor.

4. A Natureza da Evangelização
Evangelizar é difundir as boas novas de que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou segundo as Escrituras, e de que, como Senhor e Rei, ele agora oferece o perdão dos pecados e o dom libertador do Espírito a todos os que se arrependem e crêem. A nossa presença cristã no mundo é indispensável à evangelização, e o mesmo se dá com aquele tipo de diálogo cujo propósito é ouvir com sensibilidade, a fim de compreender. Mas a evangelização propriamente dita é a proclamação do Cristo bíblico e histórico como Salvador e Senhor, com o intuito de persuadir as pessoas a vir a ele pessoalmente e, assim, se reconciliarem com Deus. Ao fazermos o convite do evangelho, não temos o direito de esconder o custo do discipulado. Jesus ainda convida todos os que queiram segui-lo e negarem-se a si mesmos, tomarem a cruz e identificarem-se com a sua nova comunidade. Os resultados da evangelização incluem a obediência a Cristo, o ingresso em sua igreja e um serviço responsável no mundo.

5. A Responsabilidade Social Cristã
Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela conciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada. Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de termos algumas vezes considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão. Pois ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e do homem, de nosso amor por nosso próximo e de nossa obediência a Jesus Cristo. A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando as pessoas recebem Cristo, nascem de novo em seu reino e devem procurar não só evidenciar mas também divulgar a retidão do reino em meio a um mundo injusto. A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta.

6. A Igreja e a Evangelização
Afirmamos que Cristo envia o seu povo redimido ao mundo assim como o Pai o enviou, e que isso requer uma penetração de igual modo profunda e sacrificial. Precisamos deixar os nossos guetos eclesiásticos e penetrar na sociedade não-cristã. Na missão de serviço sacrificial da igreja a evangelização é primordial. A evangelização mundial requer que a igreja inteira leve o evangelho integral ao mundo todo. A igreja ocupa o ponto central do propósito divino para com o mundo, e é o agente que ele promoveu para difundir o evangelho. Mas uma igreja que pregue a Cruz deve, ela própria, ser marcada pela Cruz. Ela torna-se uma pedra de tropeço para a evangelização quando trai o evangelho ou quando lhe falta uma fé viva em Deus, um amor genuíno pelas pessoas, ou uma honestidade escrupulosa em todas as coisas, inclusive em promoção e finanças. A igreja é antes a comunidade do povo de Deus do que uma instituição, e não pode ser identificada com qualquer cultura em particular, nem com qualquer sistema social ou político, nem com ideologias humanas.

7. Cooperação na Evangelização
Afirmamos que é propósito de Deus haver na igreja uma unidade visível de pensamento quanto à verdade. A evangelização também nos convoca à unidade, porque o ser um só corpo reforça o nosso testemunho, assim como a nossa desunião enfraquece o nosso evangelho de reconciliação. Reconhecemos, entretanto, que a unidade organizacional pode tomar muitas formas e não ativa necessariamente a evangelização. Contudo, nós, que partilhamos a mesma fé bíblica, devemos estar intimamente unidos na comunhão uns com os outros, nas obras e no testemunho. Confessamos que o nosso testemunho, algumas vezes, tem sido manchado por pecaminoso individualismo e desnecessária duplicação de esforço. Empenhamo-nos por encontrar uma unidade mais profunda na verdade, na adoração, na santidade e na missão. Instamos para que se apresse o desenvolvimento de uma cooperação regional e funcional para maior amplitude da missão da igreja, para o planejamento estratégico, para o encorajamento mútuo, e para o compartilhamento de recursos e de experiências.

8. Esforço Conjugado de Igrejas na Evangelização
Regozijamo-nos com o alvorecer de uma nova era missionária. O papel dominante das missões ocidentais está desaparecendo rapidamente. Deus está levantando das igrejas mais jovens um grande e novo recurso para a evangelização mundial, demonstrando assim que a responsabilidade de evangelizar pertence a todo o corpo de Cristo. Todas as igrejas, portando, devem perguntar a Deus, e a si próprias, o que deveriam estar fazendo tanto para alcançar suas próprias áreas como para enviar missionários a outras partes do mundo. Deve ser permanente o processo de reavaliação da nossa responsabilidade e atuação missionária. Assim, haverá um crescente esforço conjugado pelas igrejas, o que revelará com maior clareza o caráter universal da igreja de Cristo. Também agradecemos a Deus pela existência de instituições que laboram na tradução da Bíblia, na educação teológica, no uso dos meios de comunicação de massa, na literatura cristã, na evangelização, em missões, no avivamento de igrejas e em outros campos especializados. Elas também devem empenhar-se em constante auto-exame que as levem a uma avaliação correta de sua efetividade como parte da missão da igreja.

9. Urgência da Tarefa Evangelística
Mais de dois bilhões e setecentos milhões de pessoas, ou seja, mais de dois terços da humanidade, ainda estão por serem evangelizadas. Causa-nos vergonha ver tanta gente esquecida; continua sendo uma reprimenda para nós e para toda a igreja. Existe agora, entretanto, em muitas partes do mundo, uma receptividade sem precedentes ao Senhor Jesus Cristo. Estamos convencidos de que esta é a ocasião para que as igrejas e as instituições para-eclesiásticas orem com seriedade pela salvação dos não-alcançados e se lancem em novos esforços para realizarem a evangelização mundial. A redução de missionários estrangeiros e de dinheiro num país evangelizado algumas vezes talvez seja necessária para facilitar o crescimento da igreja nacional em autonomia, e para liberar recursos para áreas ainda não evangelizadas. Deve haver um fluxo cada vez mais livre de missionários entre os seis continentes num espírito de abnegação e prontidão em servir. O alvo deve ser o de conseguir por todos os meios possíveis e no menor espaço de tempo, que toda pessoa tenha a oportunidade de ouvir, de compreender e de receber as boas novas. Não podemos esperar atingir esse alvo sem sacrifício. Todos nós estamos chocados com a pobreza de milhões de pessoas, e conturbados pelas injustiças que a provocam. Aqueles dentre nós que vivem em meio à opulência aceitam como obrigação sua desenvolver um estilo de vida simples a fim de contribuir mais generosamente tanto para aliviar os necessitados como para a evangelização deles.

10. Evangelização e Cultura
O desenvolvimento de estratégias para a evangelização mundial requer metodologia nova e criativa. Com a bênção de Deus, o resultado será o surgimento de igrejas profundamente enraizadas em Cristo e estreitamente relacionadas com a cultura local. A cultura deve sempre ser julgada e provada pelas Escrituras. Porque o homem é criatura de Deus, parte de sua cultura é rica em beleza e em bondade; porque ele experimentou a queda, toda a sua cultura está manchada pelo pecado, e parte dela é demoníaca. O evangelho não pressupõe a superioridade de uma cultura sobre a outra, mas avalia todas elas segundo o seu próprio critério de verdade e justiça, e insiste na aceitação de valores morais absolutos, em todas as culturas. As missões muitas vezes têm exportado, juntamente com o evangelho, uma cultura estranha, e as igrejas, por vezes, têm ficado submissas aos ditames de uma determinada cultura, em vez de às Escrituras. Os evangelistas de Cristo têm de, humildemente, procurar esvaziar-se de tudo, exceto de sua autenticidade pessoal, a fim de se tornarem servos dos outros, e as igrejas têm de procurar transformar e enriquecer a cultura; tudo para a glória de Deus.

11. Educação e Liderança
Confessamos que às vezes temos nos empenhado em conseguir o crescimento numérico da igreja em detrimento do espiritual, divorciando a evangelização da edificação dos crentes. Também reconhecemos que algumas de nossas missões têm sido muito remissas em treinar e incentivar líderes nacionais a assumirem suas justas responsabilidades. Contudo, apoiamos integralmente os princípios que regem a formação de uma igreja de fato nacional, e ardentemente desejamos que toda a igreja tenha líderes nacionais que manifestem um estilo cristão de liderança não em termos de domínio, mas de serviço. Reconhecemos que há uma grande necessidade de desenvolver a educação teológica, especialmente para líderes eclesiáticos. Em toda nação e em toda cultura deve haver um eficiente programa de treinamento para pastores e leigos em doutrina, em discipulado, em evangelização, em edificação e em serviço. Este treinamento não deve depender de uma metodologia estereotipada, mas deve se desenvolver a partir de iniciativas locais criativas, de acordo com os padrões bíblicos.

12. Conflito Espiritual
Cremos que estamos empenhados num permanente conflito espiritual com os principados e postestades do mal, que querem destruir a igreja e frustrar sua tarefa de evangelização mundial. Sabemos da necessidade de nos revestirmos da armadura de Deus e combater esta batalha com as armas espirituais da verdade e da oração. Pois percebemos a atividade no nosso inimigo, não somente nas falsas ideologias fora da igreja, mas também dentro dela em falsos evangelhos que torcem as Escrituras e colocam o homem no lugar de Deus. Precisamos tanto de vigilância como de discernimento para salvaguardar o evangelho bíblico. Reconhecemos que nós mesmos não somos imunes à aceitação do mundanismo em nossos atos e ações, ou seja, ao perigo de capitularmos ao secularismo. Por exemplo, embora tendo à nossa disposição pesquisas bem preparadas, valiosas, sobre o crescimento da igreja, tanto no sentido numérico como espiritual, às vezes não as temos utilizado. Por outro lado, por vezes tem acontecido que, na ânsia de conseguir resultados para o evangelho, temos comprometido a nossa mensagem, temos manipulado os nossos ouvintes com técnicas de pressão, e temos estado excessivamente preocupados com as estatísticas, e até mesmo utilizando-as de forma desonesta. Tudo isto é mundano. A igreja deve estar no mundo; o mundo não deve estar na igreja.

13. Liberdade e Perseguição
É dever de toda nação, dever que foi estabelecido por Deus, assegurar condições de paz, de justiça e de liberdade em que a igreja possa obedecer a Deus, servir a Cristo Senhor e pregar o evangelho sem quaisquer interferências. Portanto, oramos pelos líderes das nações e com eles instamos para que garantam a liberdade de pensamento e de consciência, e a liberdade de praticar e propagar a religião, de acordo com a vontade de Deus, e com o que vem expresso na Declaração Universal do Direitos Humanos. Também expressamos nossa profunda preocupação com todos os que têm sido injustamente encarcerados, especialmente com nossos irmãos que estão sofrendo por causa do seu testemunho do Senhor Jesus. Prometemos orar e trabalhar pela libertação deles. Ao mesmo tempo, recusamo-nos a ser intimidados por sua situação. Com a ajuda de Deus, nós também procuraremos nos opor a toda injustiça e permanecer fiéis ao evangelho, seja a que custo for. Nós não nos esquecemos de que Jesus nos previniu de que a perseguição é inevitável.

14. O Poder do Espírito Santo
Cremos no poder do Espírito Santo. O pai enviou o seu Espírito para dar testemunho do seu Filho. Sem o testemunho dele o nosso seria em vão. Convicção de pecado, fé em Cristo, novo nascimento cristão, é tudo obra dele. De mais a mais, o Espírito Santo é um Espírito missionário, de maneira que a evangelização deve surgir espontaneamente numa igreja cheia do Espírito. A igreja que não é missionária contradiz a si mesma e debela o Espírito. A evangelização mundial só se tornará realidade quando o Espírito renovar a igreja na verdade, na sabedoria, na fé, na santidade, no amor e no poder. Portanto, instamos com todos os cristãos para que orem pedindo pela visita do soberano Espírito de Deus, a fim de que o seu fruto todo apareça em todo o seu povo, e que todos os seus dons enriqueçam o corpo de Cristo. Só então a igreja inteira se tornará um instrumento adequado em Suas mãos, para que toda a terra ouça a Sua voz.

15. O Retorno de Cristo
Cremos que Jesus Cristo voltará pessoal e visivelmente, em poder e glória, para consumar a salvação e o juízo. Esta promessa de sua vinda é um estímulo ainda maior à evangelização, pois lembramo-nos de que ele disse que o evangelho deve ser primeiramente pregado a todas as nações. Acreditamos que o período que vai desde a ascensão de Cristo até o seu retorno será preenchido com a missão do povo de Deus, que não pode parar esta obra antes do Fim. Também nos lembramos da sua advertência de que falsos cristos e falsos profetas apareceriam como precursores do Anticristo. Portanto, rejeitamos como sendo apenas um sonho da vaidade humana a idéia de que o homem possa algum dia construir uma utopia na terra. A nossa confiança cristã é a de que Deus aperfeiçoará o seu reino, e aguardamos ansiosamente esse dia, e o novo céu e a nova terra em que a justiça habitará e Deus reinará para sempre. Enquanto isso, rededicamo-nos ao serviço de Cristo e dos homens em alegre submissão à sua autoridade sobre a totalidade de nossas vidas.

CONCLUSÃO
Portanto, à luz desta nossa fé e resolução, firmamos um pacto solene com Deus, bem como uns com os outros, de orar, planejar e trabalhar juntos pela evangelização de todo o mundo. Instamos com outros para que se juntem a nós. Que Deus nos ajude por sua graça e para a sua glória a sermos fiéis a este Pacto! Amém. Aleluia!

[Lausanne, Suíça, 1974]

Anúncios

Uma Carta de Jim Elliot a seus Pais

Padrão

UmaCartaDeJimElliotASeuPai2

Jim Elliot, que morreu como mártir nas praias do Equador, a seus pais quando lhes disse que estava partindo:

“Não me surpreende que vocês fossem entristecidos com a notícia da minha ida para a América do Sul. Isso não é nada mais do que aquilo que o Senhor Jesus nos advertiu quando ele disse aos discípulos que deveriam se tornar tão apaixonados com o reino e em segui-lo de tal forma que todas as outras alianças devem se tornar como se nunca tivessem sido feitas. E ele nunca excluiu o laço familiar. Na verdade, esses amores que consideramos como mais íntimo, ele nos disse que deveriam se tornar como ódio, em comparação com os nossos desejos de defender sua causa. Não se entristeçam, então, se os seus filhos parecem abandoná-los, mas, em vez disso, alegrem-se de ver a vontade de Deus realizada com alegria. Lembrem-se como o salmista descreveu os filhos? Ele disse que eles eram como uma herança do Senhor, e que todo homem deveria ficar feliz se tivesse a sua aljava cheia deles. E do que é cheia uma aljava  senão de flechas? E para que servem as flechas se não forem para serem atiradas? Assim, com os braços fortes da oração, puxa-se a corda do arco para trás, lançando as flechas — todas elas, direto nos exércitos do Inimigo.”

‘Consagre teus filhos para levarem a mensagem gloriosa, Dê de tuas riquezas para acelerá-los em seus caminhos, Derrama a tua alma por eles em oração vitoriosa, E tudo o que gastastes, Jesus te retribuirá.’”

Do original: A Letter From Jim Elliot To His Parents

Por: Jim Elliot

Tradução: Victor Brito; Revisão: Vinicius Musselman.

OriginalUma Carta de Jim Elliot a seus Pais

O Hobbit: um antídoto para a chatice imbecilizante do laicismo

Padrão

As histórias de J.R.R. Tolkien podem ser uma galinha dos ovos de ouro para a indústria do cinema, mas também podem ser uma ferramenta das mais eficazes para a evangelização.

Acaba de ser lançada a segunda parte da trilogia O Hobbit, filmada por Peter Jackson e intitulada A Desolação de Smaug. O filme é o quinto de uma linha extremamente bem-sucedida de filmes baseados nos livros que J.R.R. Tolkien ambientou no seu mundo ficcional, a Imagemles atraem grandes públicos, têm efeitos especiais espetaculares e conquistam o entusiasmo de quase todo o mundo. Mas a coisa mais incrível a respeito deles talvez seja o fato de que eles são absoluta, integral e completamente permeados de catolicismo.
J.R.R. Tolkien era um católico devoto e, apesar de seus livros não serem alegorias, são um reflexo da maneira como ele via o mundo.”Tolkien sempre afirmou que a sua imaginação se alimentava na fonte da fé católica”, diz Paul Gondreau, professor de Teologia no Providence College. “Não é de surpreender que muitos temas dominantes em O Hobbit (e em O Senhor dos Anéis, já que O Hobbit é uma espécie de prefácio à posterior trilogia) sejam profundamente cristãos”.”Esses temas incluem a realidade do bem e do mal e de que o bem sempre triunfa sobre o mal; a lei natural (num famoso escrito, Tolkien afirma que as leis da ‘segunda criação’, ou seja, da mitologia literária, devem imitar as leis da natureza do mundo real); o caos moral e físico que o desrespeito à lei natural provoca; o sentido paulino da ‘loucura da cruz’, em que os instrumentos escolhidos por Deus para a salvação são sempre um tapa na cara da ‘sabedoria’ humana (como os hobbits, e em particular Bilbo Bolseiro); a vida como uma jornada de passagem e o fato de que ‘não temos aqui nenhuma cidade permanente’ (Hb 13,14); os temas joaninos da luz e da escuridão (a Floresta de Mirkwood); o tema bíblico da administração do mundo pelo homem, incluindo o cuidado do meio ambiente, dos nossos corpos e do reino animal de forma responsável; e assim por diante”.

O premiado jornalista Tim Drake concorda: são os temas cristãosque fundamentam a história. “O escritor e professor católico Joseph Pearce afirma que O Hobbit aborda a jornada cristã do sacrifício pessoal por amor aos outros e o abandono confiante nas mãos da providência e da graça, que é um tema retratado nas ações de Bilbo ao longo de toda a história. Eu concordo com Pearce”.

O conforto é chato

Então por que a nossa cultura laica o abraça? Professor no Thomas Aquinas College, Andrew Seeley opina: porque o laicismo é monótono diante do mundo dramático que Tolkien imaginou.

“A nossa sociedade fez da obtenção do conforto uma grande arte. Não queremos aventuras; não, pelo menos, aventuras reais que envolvam perigo, estranheza e incerteza. O Hobbit desperta em nós, especialmente nos jovens, o desejo de deixar para trás uma vida segura, confortável, para encontrar o incrivelmente bonito, para sermos ferozes contra o mal terrível”. E acrescenta: “Eu acho que o papa Francisco iria aprovar isso”.

O sacerdote e escritor pe. John Bartunek diz que leu pela primeira vez a história pouco antes de se tornar cristão. “Eu li O Hobbit pela primeira vez na minha adolescência, no mesmo ano em que virei cristão. O que me moveu no livro tem uma ligação real com aquilo que me fez querer ser cristão”.

“Em O Hobbit, um sujeito comum (Bilbo Bolseiro) se envolve numa história extraordinária, numa aventura (…) Ele descobre que existe uma grande história acontecendo, uma batalha milenar entre o bem e o mal, e se sente chamado a fazer parte dessa história, ou melhor, a desempenhar um papel dentro dessa história. Ao correr esse risco generosamente, ele descobre um significado mais profundo para a sua vida. Isso é exatamente o que eu descobri quando me encontrei com Cristo. De repente, os horizontes de uma história muito maior –nada menos que a história da salvação- se abriram diante de mim. Eu vi que, ao me chamar para segui-lo, Jesus estava me convidando a fazer parte da grande aventura de construir o seu Reino. E esse apelo ressoou na minha alma com mais profundidade do que qualquer outra coisa que eu já tivesse sentido antes”.

Lições importantes para hoje

“A maior lição”, escreve John Zmirak, “é a de encontrar grandeza no ‘pequeno caminho’ que Deus preparou para você, é a de viver a vocação e servir os outros, é agir com justiça, trabalhar duro e amar com fidelidade”.

Edward Mulholland, professor de Línguas Modernas e Clássicas no Benedictine College, nos EUA, destaca a batalha entre o bem e o mal que fica evidente em O Hobbit. “As pessoas têm a necessidade de acreditar que existem coisas pelas quais vale a pena lutar, mesmo quando as chances parecem mínimas. Esse conflito é a verdadeira fonte da aventura (…) Cada geração tem que lutar pela vitória da justiça. Ela nunca é garantida num mundo decaído”.

Historiador da Igreja, o pe. John McCloskey concorda com Mulholland: “Há guerras que valem a pena. Existem o bem e o mal e existem criaturas sobrenaturais maiores do que nós. A virtude daesperança nunca é jogada fora quando a luta é entre o bem e o mal”.

sources: Aleteia

Por um movimento missionário pós-colonial – Bráulia Ribeiro

Vídeo

Entrevista sobre o que é o trabalho missionário hoje, a partir do Brasil, especialmente em países fechados. A entrevista (vídeo) é, digamos, um exemplo prático do que se pode chamar de “movimento missionário pós-colonial”, artigo publicado na revista Ultimato.

Repensando o conceito de missões!

Nos meados do século 20, a antropologia e a linguística se tornaram as ferramentas mais importantes do missionário. O alvo era entender culturas, transpor barreiras, entrar naquele mundo diferente. Nos movimentos mais recentes cresceu o desejo de se tornar nativo como o povo, o evangelho que se encarna. O controvertido “movimento de dentro”, o “insider movement”, advoga que religião e evangelho são coisas diferentes, e compartilham Cristo no contexto do islamismo, do hinduísmo ou do budismo sem mudar uma vírgula nas tradições ou na visão de mundo do convertido.

Hoje percebo que este movimento missionário ficou no passado. Já escrevi aqui várias vezes que o trabalho entre os indígenas brasileiros alargou as barreiras do que eu acreditava ser o evangelho. Este movimento missionário do século 20, se apoiava em concepções bem reduzidas sobre quem é o mensageiro e sobre o que era a mensagem. O mensageiro, ou missionário, era a encarnação de Cristo, a fonte pela qual a mensagem chegaria. A mensagem era a salvação individual abstrata. Esta é uma das razões por que os irmãos do “insider movement” acreditam que um muçulmano dentro de uma sociedade repressiva deve continuar muçulmano, sendo um perfeito membro de sua comunidade religiosa e social. O evangelho é uma experiência pessoal e abstrata de salvação e comunhão com Cristo.

No meio da terrível repressão religiosa da Argélia, recentemente, ex-muçulmanos convertidos decidiram adorar em público, arriscando as próprias vidas. Muitos deles saíram da fé encoberta que aprenderam dos missionários ocidentais, contra a vontade deles, para tentar viver uma fé pública. E dizem: “Se não pudermos construir igrejas, vamos morrer para que nossos filhos o possam”. A fé destes cristãos não é privada nem abstrata. Eles sabem que o cristianismo verdadeiro sacode fundamentos, transforma a história.

A nova expressão missionária se vale mais da sociopolítica e da economia do que da antropologia. Seu alvo não é entender culturas, mas sim criar pontes entre elas. É não apenas levar uma mensagem única, mas abrir as portas para que as implicações do evangelho possam chegar aos que precisam.

A decepção do mundo ocidental consigo mesmo afetou as missões protestantes. O antropologismo excessivo nasceu da ideia de que o evangelho ocidentalizado era um mal em si mesmo. Até o trabalho de traduzir a Bíblia — o que dá à população minoritária a capacidade de escrever sua língua, permitindo-lhes preservá-la — tem a tendência de ser substituído pelos movimentos que preferem usar a tradição oral, e apenas contar histórias do evangelho em vez de ensiná-lo, como se fazia anteriormente no “modelo grego”. Ora, o famigerado “modelo grego” de pensar é o que ajudou muitas populações excluídas a dialogar como o mundo de fora para obter autonomia civil e econômica.

Autores como Lamin Sanneh, Vishal Mangalwadi, Kwame Bediaku, Vinoth Ramachandra, da África, Índia e Sri Lanka, criticam a decepção do ocidente consigo mesmo e propõem uma missiologia pós-colonial, que não separa “eles e nós”, mas que chama os povos à parceria na construção civilizacional proposta pelo cristianismo. Não é por causa dos olhos azuis dos ingleses que a mortalidade infantil é menor na Inglaterra do que no Congo. Foram os mecanismos sociais criados pelos valores cristãos que permitiram ao mundo ocidental um desenvolvimento humano que o mundo animista não alcançou. Joãozinho Trinta ecoa de novo: “Quem gosta de pobre reprimido pelo islamismo radical é missionário. Nós queremos é construir igrejas (Argélia), praças arborizadas (Turquia) e liberdade de expressão (Irã). Vamos encarar?”.

• Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos de tradução da Bíblia nas ilhas do Pacífico. É autora de Chamado Radical e Tem Alguém Aí em Cima?

Fonte: http://www.ultimato.com.br/conteudo/nao-e-por-causa-dos-olhos-azuis-dos-ingleses-que-a-mortalidade-infantil-e-menor-na-inglaterra